LUIZ GONZAGA PINTO DA GAMA E A LOJA "LUIZ GAMA"

Em 24 de agosto de 1884 foi fundada a nossa Loja, tendo como patrono Luiz Gonzaga Pinto da Gama, conhecido como Luiz Gama.

Luiz Gama escreveu sua própria autobiografia, numa carta, para seu amigo Lúcio de Mendonça, em 25 de julho de 1880, quando tinha 50 anos de idade, de onde relato os principais lances, da forma como ele escreveu:

Nasci na cidade São Salvador, capital da província da Bahia, em um sobrado da Rua do Bângala, há 21 de junho de 1830, pelas 7 horas da manhã, e fui batizado, 8 anos depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica.

Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de nação) de nome Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã.

Dava-se ao comércio - era quitandeira, muito laboriosa. Era dotada de atividade. Em 1837 (eu tinha sete anos) depois da Revolução do Dr Sabino, na Bahia, foi ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856 e 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar.

Meu pai era fidalgo e pertencia a uma das principais famílias da Bahia, de origem portuguesa. Devo poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.

Ele foi rico; e nesse tempo, muito extremoso para mim: criou-me em seus braços. Foi revolucionário em 1837. Esbanjou uma boa herança, obtida de uma tia em 1836; e reduzido à pobreza extrema, a 10 de novembro de 1840, vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho "Saraiva".

Remetido para o Rio de Janeiro nesse mesmo navio, fui, com muitos outros, para a casa de um português de nome Vieira, à rua da Candelária, que recebia escravos da Bahia, à comissão.

Nesta casa, em dezembro de 1840, fui vendido ao negociante e contrabandista alferes Antônio Pereira Cardoso, comprou-me e com apenas 10 anos; a pé, fiz toda a viagem de Santos até Campinas.

Fui escolhido por muitos compradores, nesta cidade, em Jundiaí e Campinas; e, por todos repelidos, como se repelem coisas ruins, pelo simples fato de ser eu "baiano".

Repelido como "refugo", voltei para a casa do Sr. Cardoso, nesta cidade, à rua do Comércio nº 2, sobrado, perto da Igreja da Misericórdia. Aí aprendi a copeiro, a sapateiro, a lavar e a engomar roupa e a costurar.

Em 1847, contava eu 17 anos, quando para casa do Sr. Cardoso veio morar, como hóspede, para estudar humanidades, o menino Antônio Rodrigues do Prado Júnior. Fizemos amizade íntima, de irmãos diletos, e ele começou a ensinar-me as primeiras letras.

Em 1848, sabendo eu ler e contar alguma coisa, e tendo obtido ardilosa e secretamente provas inconcussas de minha liberdade, retirei-me, fugindo, da casa do alferes Antônio Pereira Cardoso, que, aliás, votava-me a maior estima, e fui assentar praça. Servi até 1854, seis anos; cheguei a cabo de esquadra graduado, e tive baixa de serviço, depois de responder a conselho, por ato de suposta insubordinação, quando me tinha limitado a ameaçar um oficial insolente, que me havia insultado e que soube conter-me.

Estive, então, preso por 39 dias. Durante o meu tempo de praça, nas horas vagas, fiz-me copista; escrevia para o escritório do escrivão, major Benedito Antônio Coelho Neto, que se tornou meu amigo; e, como amanuense, no gabinete do exmo. sr. conselheiro Francisco Maria de Sousa Furtado de Mendonça, que aqui exerceu altos cargos na administração, e que é catedrático da Faculdade de Direito, fui seu ordenança; por meu caráter, por minha atividade e por meu comportamento, conquistei a sua estima e a sua proteção; e as boas lições de letras e de civismo, que conservo com orgulho.

Em 1856, depois de haver servido como escrivão perante diversas autoridades policiais, fui nomeado amanuense da Secretaria de Polícia, onde servi até 1868, época em que "por turbulento e sedicioso" fui demitido a “bem do serviço público”, pelos conservadores, que então haviam subido ao poder.

A turbulência consistia em fazer eu parte do Partido Liberal; e, pela imprensa e pelas urnas, pugnar pela vitória de minhas e suas idéias; e promover processos em favor de pessoas livres criminosamente escravizadas; e auxiliar licitamente, na medida de meus esforços, alforrias de escravos, porque detesto o cativeiro e todos os senhores, principalmente os Reis.

Agora chego ao período em que, meu caro Lúcio, nos encontramos no "Ipiranga", à rua do Carmo, tu, como tipógrafo, eu como simples aprendiz-compositor, de onde saí para o foro e para a tribuna, onde ganho o pão para mim e para os meus, que são todos os pobres, todos os infelizes; e para os míseros escravos, que, em número superior a 500, tenho arrancado às garras do crime.

Aqui termina a autobiografia de Luiz Gama, encaminhada a Lúcio de Mendonça, onde retrata seus fatos até 1868, apesar de ter escrito em 1880, não fazendo referencia a muitos outros fatos, que tentaremos retratar.

Publicou em 1859 seu livro as “Primeiras Trovas Burlescas”. Uma 2 a edição foi publicada em 1861 e uma 3 a, póstuma, em 1904.

Neste livro encontramos o poema "Quem sou eu?", com nome popular "Bodarrada", escrito em resposta ao apelido de "Bode" com que tentavam ridicularizá-lo. Tornou-se, o texto, precursor da crítica à ideologia racista do embranquecimento.

Sud Mennucci escreve uma reveladora anedota contada por Filinto Lopes, primeiro tabelião da cidade de São Paulo:

Numa audiência em que Luiz Gama, como advogado, teve a necessidade de ouvir o Brigadeiro Carneiro Leão, homem que gostava de se referir com incrível prazer à sua aristocrática ascendência, e que fazia alusões ao seu brasão, Luiz Gama interrompeu o depoente para esclarecer um ponto, da seguinte forma:

  • Então, o primo afirma que viu...
  • Quem é o primo? - indagou o Brigadeiro, estupefato com aquela falta de respeito.
  • O senhor naturalmente, - insistiu Gama.
  • Mas, primo de quem? - Perguntou o Brigadeiro
  • Ora, meu, de certo.
  • Seu primo? - explodiu o fidalgo num assomo de cólera. Mas baseado em que parentesco?
  • Homessa! - explodiu risonho Luiz Gama. Eu sempre ouvi dizer que bode e carneiro são parentes. E parentes chegados.

Nota-se o senso crítico e humorístico de Luiz Gama com o fato acontecido.

Luiz Gama casou-se com Claudina Fortunata Sampaio Gama e em 1859, no momento que publicava seu livro nasce seu único filho, em 20 de julho, Benedicto Graccho Pinto da Gama que pertenceu a Força Publica de São Paulo, aonde chegou a Comandante dos Bombeiros de São Paulo e foi iniciado, também, na Loja "América". Seu filho faleceu em 20 de abril de 1910, tendo sido enterrado num túmulo ao lado de seu pai, no Cemitério da Consolação.

Em meados de 1860, torna-se um “Advogado Aprovisionado” ou “Rábula” e continua seu trabalho de libertação de escravos.

Luiz Gama fundou a imprensa humorística ilustrada em São Paulo, quando inaugurou o “Diabo Coxo”, em 17 de outubro de 1864, juntamente com Ângelo Agostini, resenha publicada até 24 de novembro de 1865.

Em 1866 fundou o semanário humorístico “Cabrião”, juntamente com Ângelo Agostini e Américo de Campos.

Colaborou em várias publicações “O Mequetrefe”, “O Coaraci”, o “O Ipiranga”, e em vários jornais da capital, dentre eles o “Correio Paulistano”, dirigido por seu companheiro Américo de Campos, bem como em 1875 escreveu artigos para o diário “A Província de São Paulo”, predecessor do "O Estado de São Paulo”. Foi um dos oradores do Clube Radical Paulistano e o redator do seu órgão o “Radical Paulistano”.

Foi proprietário do histórico semanário político e satírico “O Polichinelo”, de 23 de abril a 31 de dezembro de 1876.

Fez versos; escreveu para muitos jornais; colaborou em outros literários e políticos, e redigiu alguns.

Em 23 de agosto de 1868 recebeu o Grau 18 (Príncipe Rosa-Cruz), da Ordem Maçônica, no Rio de Janeiro.

Em 01 de agosto de 1870, com 40 anos de idade, Luiz Gama filia-se a Augusta e Respeitável Loja Simbólica "América", na antiga Rua da Palha, figurando como fundador, juntamente com outros nomes renomados.

A Loja foi, somente, regularizada em data de 07 de julho de 1869, sendo que já funcionava desde 09 de novembro de 1868, quando foi organizada.

Nas sétima e oitava administração, de 1874 a 1876, bem como nas décima segunda e décima terceira, de 1879 a 1880, Luiz Gama ocupou o altar da Loja "América", com 44/45 anos e 49/50 anos de idade, respectivamente.

O primeiro período de existência da Loja foi considerado de fundação, pois ficou sob os auspícios do Grande Oriente do Brasil, do Vale dos Beneditinos, tendo como Grão Mestre o ilustre brasileiro Joaquim Saldanha Marinho.

No período acima, provisório, até a sua regularização, foi venerável o Dr Antonio Carlos Ribeiro de Andrade Machado e Silva, que igualmente ocupou o altar na segunda administração, e primeira regular, de 07 de julho de 1869 até 22 de agosto de 1870.

De acordo com o Irmão da Loja, Antonio Góes Nobre, pequeno negociante de roupas feitas, à rua Direita nº 3, fundador da Loja "Luiz Gama", através de uma declaração assinada por ele, declara que ele foi iniciado na Loja "7 de Setembro" e ai conheceu Luiz Gama, com quem, desde logo, travou relações íntimas de amizade e assistiu freqüentemente às sessões da Loja "América", da qual ele era Venerável, a qual funcionava na antiga rua da Palha.

Antes da morte de Luiz Gama o Ir Antonio Góes Nobre já havia fundado as Lojas "Trabalho" e "Ordem e Progresso".