Literatura
Carta ao Filho


A obra de Luiz Gama pode ser pouco conhecida entre os brasileiros. Seus poemas não são ensinados na escola nem fazem parte de questões do vestibular. Fora da comunidade negra politicamente ativa, poucos são os que destacam a importância de sua obra que reflete apenas uma opção de vida: a de combater a escravidão, da qual foram vítimas sua mãe e ele mesmo, após os dez anos de idade.

Considerado pelo poeta "menor" Manuel Bandeira (como este mesmo se considerava) o autor do "melhor poema satírico brasileiro", A Bodorrada, Luiz Gama se dedicou principalmente às sátiras política e de costumes, numa herança direta da sátira portuguesa. O toque brasileiro fica por conta da introdução de palavras de origem africana - origem essa da qual ele se orgulhava - e dos temas abordados, entre os quais, a sociedade aristocrática e monárquica que sustentava a escravidão.

Além da sátira, Luiz Gama também escreveu poemas líricos de inspiração romântica e foi o primeiro poeta brasileiro a escrever sobre a mulher negra, em sua dupla condição de desigualdade. Luiz Gama escrevia sobre si mesmo, sua condição social e a de seus amigos e família, os infortúnios do negro em sua época, a hipocrisia aristocrática, tornando-se um fiel herdeiro herdeiro da sátira portuguesa e crítico contumaz de toda uma sociedade que marcou sua própria existência.
Com a crítica à corrupção dos políticos, à imoralidade do judiciário e à futilidade das mulheres apenas preocupadas com a moda, o autor comprou duas brigas com o poder (o que o manteve em condição quase sempre de pobreza): o combate à escravidão e a defesa dos ideais republicanos.

Como uma forma de resgatar e reunir em livro tudo o que o autor escreveu, Ligia Ferreira, que estudou a obra do autor, preparou para a editora Martins Fontes a única obra de Luiz Gama: Primeiras Trovas Burlescas, editada originalmente em 1859 e reeditada em versão revista e aumentada em 1861. A edição completa traz ainda textos publicados pelo autor na imprensa e ilustrações inéditas, comemorando os 170 anos do nascimento do escritor, cujo aniversário é comemorado em 21 de junho. O livro será lançado em São Paulo no dia 29 de junho.

Depois de sua morte, os poemas de Luiz Gama foram reeditados algumas vezes, mas as edições pecavam pela inexatidão: troca de palavras, supressão de palavras, versos e estrofes. Agora, a versão de 1861 é reeditada em versão completa, com notas de rodapé, correções, três poemas publicados em 1859 e suprimidos na edição de 1861, versos publicados pelo autor na imprensa paulistana e ilustrações - algumas inéditas.


CARTA AO FILHO

Meu filho

Dize a tua mãe que a ela cabe o rigoroso dever de conservar-se honesta e honrada; que não se atemorize da extrema pobreza que lego-lhe, porque a miséria é o mais brilhante apanágio da virtude.
Tu evitas a amizade e as relações dos grandes homens; eles são como o oceano que se aproxima das costas para corroer os penedos
Sê republicano, como o foi o Homem-Cristo. Faze-te artista; crê, porém, que o estudo é o melhor entretenimento, e o livro o melhor amigo.
Faze-te apóstolo do ensino, desde já. Combate com ardor o trono, a indigência e a ignorância. Trabalha por ti e com esforço inquebrantável para que este país em que nascemos, sem rei e sem escravos, se chame – Estados Unidos do Brasil.
Sê cristão e filósofo; crê unicamente na autoridade da razão, e não te alies jamais a seita alguma religiosa. Deus revela-se tão somente na razão do homem, não existe em Igreja alguma do mundo.
Há dois livros cuja leitura recomendo-te: a Bíblia Sagrada e a Vida de Jesus por Ernesto Renan.
Trabalha, e sê perseverante.
Lembra-te que escrevi estas linhas em momento supremo, sob a ameaça de assassinato. Tem compaixão de teus inimigos, como eu compadeço-me da sorte dos meus.

Teu pai Luiz Gama

Carta destinada a Benedicto Gracco Pinto da Gama (20-07-1859 a 20-04-1910), único filho que Luiz Gama teve com sua mulher Claudina Fortunata Sampaio. Benedicto Gama, que cursou a Escola Militar, foi major de artilharia do exército, e ocupou o posto de comandante do corpo de Bombeiros de S.Paulo.

Homenagem no Tumulo de Luiz Gama
Cemitério da Consolação
13 de maio de 2005

Ir.: Benemar França
L.: Luiz Gama - GOSP
Tataraneto de Luiz Gama